Dr. Gustavo Matos Oncologia Clínica ← Voltar ao site
Segurança · Terapias alternativas

Terapias alternativas: onde estão os riscos

Além da fitoterapia — o que avisar ao seu médico e por quê.

Existe uma diferença entre terapias complementares e terapias alternativas, pouco falada, e cujo desconhecimento causa muita confusão. Terapia complementar (ou integrativa) é aquela usada junto com o tratamento convencional, para melhorar sintomas ou qualidade de vida: acupuntura para náusea, meditação e mindfulness para ansiedade, exercício orientado durante a quimioterapia. Boa parte dessas práticas tem evidência razoável de benefício e, feitas por profissional habilitado, não são o problema. Já terapia alternativa é a que se propõe a substituir o tratamento convencional, a tratar a doença por conta própria. É aí que mora o risco mais grave, e o que menos se comenta.

O maior perigo das terapias alternativas raramente é o efeito colateral: é o que se deixa de fazer. O risco principal costuma ser invisível, porque não aparece como uma reação adversa, mas como uma janela de tratamento perdida. Quem troca uma terapia eficaz por uma alternativa, ou apenas adia a primeira para "tentar antes o natural", perde tempo que muitas vezes não volta. Em doenças de curso rápido (e vários cânceres são assim), semanas importam. Há estudos que associaram o uso de medicina alternativa em vez do tratamento convencional a um risco significativamente maior de morte, e o uso de terapias complementares a uma chance maior de o paciente recusar parte do tratamento indicado (o que, por sua vez, piorava a sobrevida). O dano, nesse caso, não vem da erva: vem da ausência do tratamento que funcionaria.

Além da substituição, várias práticas causam dano direto, e aqui saímos da fitoterapia para procedimentos e substâncias que não são "chá":

Há ainda dois riscos menos "clínicos", mas reais. Um é o financeiro e emocional: tratamentos alternativos caros exploram o momento de maior vulnerabilidade de uma pessoa e de sua família, e a frustração quando não funcionam cobra um preço próprio. O outro é o de mascarar sintomas: uma prática que "faz sentir melhor" pode adiar a percepção de que a doença está avançando, atrasando a volta ao médico.

Aqui cabe a honestidade para o meu próprio lado. Muita gente procura o alternativo não por ingenuidade, mas por lacunas que a medicina convencional deixa: consultas apressadas, pouca escuta, dor e ansiedade mal acolhidas, a sensação de ser um número. Enquanto nós, profissionais, não cuidarmos também dessa dimensão (o sofrimento, o medo, a necessidade de sentido), o espaço para promessas fáceis continuará aberto. Criticar a terapia alternativa sem reconhecer isso seria desonesto.

Nada disso significa demonizar todo cuidado não convencional. Significa separar o que soma do que substitui, e trazer tudo para a mesa do médico, inclusive as práticas que parecem inofensivas. O profissional não está ali para proibir por proibir; está para ajudar a distinguir o que ajuda, o que é neutro e o que compete perigosamente com o tratamento. E ele só consegue fazer isso com aquilo que conhece.


Para checar afirmações sobre terapias alternativas em fontes confiáveis, valem o portal do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e, para quem lê em inglês, a base de práticas integrativas do Memorial Sloan Kettering (About Herbs), que revisa a evidência de cada substância e prática, uma a uma.