Terapias alternativas: onde estão os riscos
Além da fitoterapia — o que avisar ao seu médico e por quê.
Existe uma diferença entre terapias complementares e terapias alternativas, pouco falada, e cujo desconhecimento causa muita confusão. Terapia complementar (ou integrativa) é aquela usada junto com o tratamento convencional, para melhorar sintomas ou qualidade de vida: acupuntura para náusea, meditação e mindfulness para ansiedade, exercício orientado durante a quimioterapia. Boa parte dessas práticas tem evidência razoável de benefício e, feitas por profissional habilitado, não são o problema. Já terapia alternativa é a que se propõe a substituir o tratamento convencional, a tratar a doença por conta própria. É aí que mora o risco mais grave, e o que menos se comenta.
O maior perigo das terapias alternativas raramente é o efeito colateral: é o que se deixa de fazer. O risco principal costuma ser invisível, porque não aparece como uma reação adversa, mas como uma janela de tratamento perdida. Quem troca uma terapia eficaz por uma alternativa, ou apenas adia a primeira para "tentar antes o natural", perde tempo que muitas vezes não volta. Em doenças de curso rápido (e vários cânceres são assim), semanas importam. Há estudos que associaram o uso de medicina alternativa em vez do tratamento convencional a um risco significativamente maior de morte, e o uso de terapias complementares a uma chance maior de o paciente recusar parte do tratamento indicado (o que, por sua vez, piorava a sobrevida). O dano, nesse caso, não vem da erva: vem da ausência do tratamento que funcionaria.
Além da substituição, várias práticas causam dano direto, e aqui saímos da fitoterapia para procedimentos e substâncias que não são "chá":
- Terapias injetáveis e intravenosas "naturais" (megadoses de vitamina C na veia, "soro de ozônio", quelação para "desintoxicar"). O procedimento em si tem riscos (infecção, sobrecarga, reações), e a promessa de cura raramente se sustenta. A quelação, por exemplo, remove metais do corpo, mas usada fora da indicação correta pode baixar perigosamente o cálcio do sangue.
- "Limpezas" e desintoxicações (enemas de café, lavagens intestinais, jejuns prolongados, dietas muito restritivas ditas antitumorais). Podem causar desidratação, distúrbios de eletrólitos (as concentrações de sódio, potássio e afins que mantêm o coração e os músculos funcionando) e desnutrição, justamente em quem já está fragilizado.
- Produtos sem regulação e sem controle de qualidade. Preparações artesanais ou importadas por fora costumam não ter dose padronizada nem checagem de pureza. Há relatos consistentes de contaminação de alguns produtos "naturais" com metais pesados (chumbo, mercúrio, arsênico) e até com fármacos escondidos na fórmula. O rótulo diz "puro"; o conteúdo, ninguém garante.
- Substâncias vendidas como cura milagrosa (noni, fosfoetanolamina, dentre várias). Não só carecem de evidência de eficácia como podem ter toxicidade própria.
Há ainda dois riscos menos "clínicos", mas reais. Um é o financeiro e emocional: tratamentos alternativos caros exploram o momento de maior vulnerabilidade de uma pessoa e de sua família, e a frustração quando não funcionam cobra um preço próprio. O outro é o de mascarar sintomas: uma prática que "faz sentir melhor" pode adiar a percepção de que a doença está avançando, atrasando a volta ao médico.
Aqui cabe a honestidade para o meu próprio lado. Muita gente procura o alternativo não por ingenuidade, mas por lacunas que a medicina convencional deixa: consultas apressadas, pouca escuta, dor e ansiedade mal acolhidas, a sensação de ser um número. Enquanto nós, profissionais, não cuidarmos também dessa dimensão (o sofrimento, o medo, a necessidade de sentido), o espaço para promessas fáceis continuará aberto. Criticar a terapia alternativa sem reconhecer isso seria desonesto.
Nada disso significa demonizar todo cuidado não convencional. Significa separar o que soma do que substitui, e trazer tudo para a mesa do médico, inclusive as práticas que parecem inofensivas. O profissional não está ali para proibir por proibir; está para ajudar a distinguir o que ajuda, o que é neutro e o que compete perigosamente com o tratamento. E ele só consegue fazer isso com aquilo que conhece.
Para checar afirmações sobre terapias alternativas em fontes confiáveis, valem o portal do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e, para quem lê em inglês, a base de práticas integrativas do Memorial Sloan Kettering (About Herbs), que revisa a evidência de cada substância e prática, uma a uma.