Dr. Gustavo Matos Oncologia Clínica ← Voltar ao site
Qualidade de vida

Não é proibido se divertir durante o tratamento do câncer

Viajar, brindar, ir à praia, ir à festa: o que muda durante o tratamento.

Uma pergunta aparece o tempo todo no consultório, quase sempre em voz baixa e com um quê de culpa: "posso viajar?", "posso tomar uma cerveja no aniversário?", "posso ir à praia?", "posso ir à festa da minha filha?". Por trás de todas elas há uma dúvida maior, raramente dita em voz alta: durante o tratamento, ainda é permitido viver bem?

A resposta curta é sim. Qualidade de vida não é o oposto do tratamento: é um dos objetivos dele. Tratar um câncer não se resume a controlar a doença nos exames; envolve manter, na medida do possível, a vida que faz o tratamento valer a pena. Um paciente que continua rindo, encontrando as pessoas de quem gosta e fazendo o que lhe dá prazer costuma atravessar melhor os meses difíceis, e isso conta a favor do cuidado, não contra ele.

"Não é proibido", porém, não é o mesmo que "vale tudo, sem pensar". Entre o "pode tudo" e o "não pode nada" existe um território bem maior, que é o da adaptação. O que é seguro depende do tipo de câncer, do tratamento em curso, da fase em que se está e, muitas vezes, dos exames de sangue do momento (há períodos em que as defesas do corpo caem, o chamado nadir, e o risco de infecção aumenta). Por isso a mesma atividade pode ser tranquila numa semana e desaconselhável na outra.

E aqui vale falar diretamente com você: não precisa sentir culpa por querer viver bem, nem receio de perguntar. O médico não está ali para vetar a sua vida, mas para ajudar você a fazer o que deseja da forma mais segura. Na maior parte das vezes, a conversa não termina em "não"; termina em "sim, com alguns ajustes" (o dia certo, o cuidado certo, uma adaptação simples).

Alguns exemplos ajudam a entender o tamanho desse território. Viajar, por exemplo, costuma ser possível, mas o planejamento muda conforme o caso: em tumores cerebrais, o controle das crises epilépticas (as convulsões) e as regras de direção veicular entram na conta, e às vezes é melhor programar a viagem para uma janela entre os ciclos de quimioterapia, quando as defesas estão mais altas. Uma taça de vinho ou uma cerveja na comemoração também não são, em si, proibidas, mas o álcool interage com vários medicamentos (alguns anticonvulsivantes e certas medicações de suporte, por exemplo) e, em determinadas situações, pode até facilitar crises; por isso a dose e o momento importam. Sol e praia seguem a mesma lógica: alguns quimioterápicos deixam a pele mais sensível à luz, o que não impede o passeio, apenas pede protetor e bom senso.

Repare no padrão: em nenhum desses casos a resposta honesta é um "não" seco. É "depende de como", e esse "como" só se descobre conversando.

Nós, médicos, às vezes erramos para o lado do "não" por excesso de cautela, porque é mais rápido proibir do que sentar e pensar junto na adaptação, uma demonstração do cuidado que temos com nossos pacientes. Só que o "não" fácil também tem um custo, que é tirar do paciente coisas que lhe fariam bem sem uma razão real. Um bom cuidado leva esse custo a sério.

Por isso o recado prático é simples: antes de abrir mão de algo que te faz bem (ou de fazer por conta própria algo que gera dúvida), leve a pergunta ao seu médico ou à equipe multidisciplinar. Traga o plano concreto ("quero viajar em tal data", "quero ir a tal festa", "posso beber na formatura?") para que a orientação seja sob medida, e não um palpite genérico. Se quiser se informar por conta própria, prefira fontes confiáveis (o INCA, por exemplo, tem material sobre qualidade de vida durante o tratamento), mas nada substitui a orientação individualizada da sua equipe. Na maioria das vezes, a resposta será sim, com os ajustes necessários para que seja seguro.