Dr. Gustavo Matos Oncologia Clínica ← Voltar ao site
Segurança · Medicamentos

Avise seu médico sobre remédios, suplementos e terapias em uso

Interações medicamentosas e segurança.

Quando um médico pede que o paciente avise sobre "remédios e suplementos em uso, e também sobre terapias alternativas", ele não está fazendo cortesia nem preenchendo formulário: está tentando evitar um problema real, que aparece com mais frequência do que se imagina no consultório.

O nome técnico desse problema é interação medicamentosa. De forma simples, é quando uma substância muda o efeito de outra: pode potencializá-la (o efeito fica mais forte do que o desejado), reduzi-la (o remédio deixa de funcionar como deveria) ou gerar um efeito novo, indesejado. E aqui vem o ponto que costuma surpreender: "substância" não quer dizer só o comprimido que o médico prescreveu. Entram na conta o chá que se toma todo dia, a vitamina comprada por conta própria, o suplemento do treino e o produto "natural" recomendado por um conhecido.

É importante um esclarecimento: natural não é sinônimo de inofensivo. Muita gente omite ervas e suplementos justamente por achar que "não é remédio, então não interfere". Interfere. Boa parte dos princípios ativos da farmacologia moderna nasceu de plantas (a aspirina veio do salgueiro, a digoxina da dedaleira, vários quimioterápicos de fungos e vegetais), e o fato de algo ser vendido sem receita não significa que seja quimicamente neutro. Um exemplo meio catastrófico na Oncologia é a interação de um quimioterápico para sarcomas, a trabectedina, com um chá aparentemente inofensivo, o chá de hibisco, que, quando juntos, podem aumentar as toxicidades da trabectedina de formas assustadoras e potencialmente fatais.

Na Oncologia, essa conversa é ainda mais delicada. Muitos tratamentos (quimioterapia, terapias-alvo, imunoterapia) têm uma "janela terapêutica" estreita: a diferença entre a dose que trata e a dose que faz mal é pequena. Um suplemento que altere o metabolismo do fármaco no fígado pode, na prática, subdosar o tratamento (reduzindo a chance de resposta) ou sobredosá-lo (aumentando a toxicidade). Antioxidantes em altas doses (vitaminas, por exemplo) durante radioterapia ou quimioterapia, por exemplo, são um debate aberto, porque teoricamente poderiam proteger também a célula tumoral que se quer destruir. Não é que tudo seja proibido; é que cada item precisa ser pesado, e o médico só consegue pesar aquilo que conhece.

Daí a lógica por trás do pedido. O raciocínio é simples: o médico só protege o paciente daquilo que ele sabe que o paciente está tomando. A omissão costuma vir de boa-fé (vergonha de admitir o uso de um "natural", medo de ser repreendido, ou a impressão de que aquilo "não conta"), mas ela retira do profissional exatamente a informação de que ele precisa para ajustar doses, trocar um remédio ou apenas tranquilizar quando não há risco algum. Não precisa ter medo. O médico não vai julgar suas práticas, mas ele precisa poder te ajudar da melhor forma possível: às vezes é proibindo algo que pode atrapalhar seu tratamento, mas na maior parte das vezes, é mais uma questão de adaptação.

Orientações práticas

No fim, avisar o médico sobre tudo que se usa não é entregar o controle da própria saúde: é o oposto. É possibilitar que a decisão do médico ou da equipe multidisciplinar seja segura, e é uma forma de o paciente participar ativamente do próprio cuidado.


Para conferir interações de medicamentos em fontes confiáveis, vale consultar a bula oficial na Anvisa (bulário eletrônico) e, sempre que possível, conversar com o médico ou o farmacêutico que acompanham o caso.